 |
| Imagem: Reprodução |
Muito além de uma técnica artesanal, o crochê pode ser um arquivo de memórias, afetos e identidades. É dessa perspectiva que nasce Fios de Memória, exposição que ocupa a Pinacoteca, em Natal, no período de 1º e 30 de agosto, propondo ao público uma reflexão sobre o trabalho manual como patrimônio cultural e expressão da história de pessoas comuns que ajudaram a construir o país longe dos registros oficiais.
A abertura acontece no dia 1º de agosto, às 10h, com entrada gratuita.
Concebida para marcar o centenário de nascimento de Almira Costa de Oliveira (1926-2022), a exposição reúne peças de crochê produzidas ao longo de décadas, fotografias, documentos e objetos pessoais que revelam uma trajetória marcada pela migração, pelo trabalho, pela criatividade e pelos vínculos familiares. Mais do que contar uma história individual, a mostra transforma uma memória familiar em uma experiência coletiva, capaz de dialogar com diferentes gerações.
Nascida no sertão paraibano, Almira enfrentou as dificuldades impostas pela seca, construiu uma família ao lado de Sebastião Manoel de Oliveira e, em 1959, encontrou em Natal o lugar onde consolidaria sua história de vida.
Na capital potiguar, Almira trabalhou, empreendeu e desenvolveu uma produção artesanal que atravessou décadas, transformando o crochê em expressão de cuidado, beleza e permanência. Além de dona de casa, ela e o marido viveram como grande parte da população brasileira: fizeram trabalhos informais, venderam produtos em feiras, mantiveram uma pequena mercearia na frente de casa e encontraram diferentes formas de garantir o sustento da família, até que os filhos alcançassem melhores condições de vida e pudessem ampará-los na velhice.
Após a aposentadoria, ela passou a dedicar ainda mais tempo ao artesanato. Produziu colchas, enxovais e inúmeras peças que hoje carregam não apenas valor estético, mas também afetivo e histórico. Costumava dizer que jamais venderia seu trabalho porque "não tinha dinheiro que pagasse" o significado de cada peça.
Um convite para pensar com as mãos
Com curadoria da arquiteta Luanda Oliveira e da jornalista Mônica Costa, neta e filha da homenageada, respectivamente, a exposição propõe um olhar contemporâneo sobre o fazer artesanal, retirando-o do espaço doméstico para inseri-lo no campo da memória, da cultura e da preservação patrimonial.
A coordenação geral dos trabalhos é de Margarida Oliveira, também filha de Almira, responsável por articular o trabalho de pesquisa, organização do acervo e produção da mostra, reunindo a família em torno da preservação e compartilhamento desse legado. "Entrar em Fios de Memória é aceitar um convite para desacelerar o tempo e aprender a pensar com as mãos. Esta exposição, gestada com afeto para celebrar o centenário de Almira Costa de Oliveira, propõe um deslocamento sensível: retirar o crochê do silêncio do ambiente doméstico para revelar sua força como linguagem de resistência, identidade e partilha. Almira representa a história preciosa de tantos sujeitos comuns — pessoas das classes populares que, longe dos registros oficiais, escrevem a história de nosso país com as pontas dos dedos", afirmam as curadoras.
A arquiteta Diana Delgado é responsável pela Pesquisa e Desenvolvimento da Exposição e é co-autora, juntamente com Luanda Oliveira pela expografia.
A mostra apresenta peças confeccionadas por Almira ao longo de aproximadamente 50 anos. A obra mais antiga em exibição é uma colcha de cama produzida em 1969, criada como presente de casamento para uma sobrinha e preservada pela família até hoje. O percurso expositivo também estabelece um diálogo entre gerações ao incluir trabalhos contemporâneos produzidos por Maria das Graças, filha de Almira, que herdou da mãe o talento para o artesanato e mantém viva essa tradição familiar.
Passado e presente
A exposição narra fatos marcantes da vida de Almira e de sua família. O visitante vai perceber como os fios do crochê também entrelaçam temas como migração, maternidade, trabalho, empreendedorismo feminino e transmissão de saberes entre gerações.
Mais do que preservar lembranças, Fios de Memória reafirma o valor das histórias anônimas que compõem a identidade cultural brasileira. Em um tempo marcado pela velocidade e pelo consumo, a exposição convida o público a desacelerar e reconhecer que cada ponto, cada fotografia e cada objeto guardam experiências que merecem ser compartilhadas.
Realizada no ano em que Almira completaria 100 anos, a mostra celebra um legado que ultrapassa os limites da família e passa a integrar a memória coletiva da cidade.
Quem foi Almira
Nascida em 1º de julho de 1926, no sertão da Paraíba, Almira Costa de Oliveira construiu uma trajetória marcada pela resiliência, pelo trabalho e pelo afeto. Em 1959, mudou-se com a família para Natal, onde fixou residência no bairro das Quintas e viveu pelo restante da vida. Teve seis filhos — dois homens e quatro mulheres —, 15 netos e 15 bisnetos. Outros descendentes nasceram após sua partida, ampliando um legado familiar que continua a crescer. Muito religiosa, encontrava na fé uma fonte permanente de esperança. Depois de enfrentar as dificuldades da seca, da migração e da luta cotidiana pelo sustento da família, tornou-se uma pessoa profundamente grata pela vida que construiu. Era conhecida pelo otimismo contagiante, pela disposição para o trabalho, pela generosidade e pela capacidade de enxergar motivos para celebrar mesmo diante das adversidades. Seu talento para o crochê, aprendido ainda na adolescência e aperfeiçoado ao longo de décadas, tornou-se uma das expressões mais marcantes de sua criatividade e permanece vivo nas peças que hoje integram a exposição Fios de Memória.
Casada durante 75 anos com Sebastião Manoel de Oliveira, os dois permaneceram juntos até a morte dele, em agosto de 2021. Almira faleceu apenas 149 dias depois, encerrando uma trajetória marcada por uma longa vida compartilhada.
SERVIÇO
Exposição: Fios de Memória
Período: 1º a 30 de agosto de 2026
Abertura: 1º de agosto, às 10h
Local: Pinacoteca – Natal (RN)
Entrada: Gratuita
🅰️ Revista Eletrônica Mais Atualizada do Vale do Açu
#blogalexsilvaassu